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O “gênero” dos super-heróis precisa acabar nos cinemas!

- – Ou também: por que a ideia do “filme de super-herói” é prejudicial para o mercado!

Por Gus FiauxQuem olha o calendário de lançamentos dos estúdios nos últimos anos deve achar que o “gênero” dos super-heróis é um dos mais tradicionais de Hollywood. Só nos últimos anos, vimos filmes dos mais diversos personagens de HQs sendo lançados com poucas semanas de diferença – alguns até concorrendo entre si.

Claro que, olhando em retrospecto, sabemos que a história é bem maior do que parece, uma vez que a ascensão dos heróis se deu de uma forma lenta e gradativa, impulsionada por diversos booms ao longo dos anos. Primeiro veio Superman: O Filme, de 1978, que provou ao mundo que esse tipo de filme era rentável e, acima de tudo, possível de se fazer.

No entanto, após a decaída promovida pelos filmes de Joel Schumacher sobre o Batman, os heróis só se reergueriam novamente no começo dos anos 2000, graças a, entre outros, X-Men e a trilogia do Homem-Aranha. E ainda assim, alguns filmes trágicos quase ameaçavam a existência desse mercado.

Curiosamente, dois nomes foram importantíssimos para que os heróis alcançassem o patamar em que estão hoje: são eles Christopher Nolan, que conseguiu transformar o Cavaleiro das Trevas em um personagem realista e verossímil, e Kevin Feige, o mago-produtor-maestro do Universo Cinematográfico da Marvel.

Se, por um lado, Nolan mostrou que os filmes de heróis poderiam ter qualidade técnica superior ao que se esperava deles, Feige mostrou que o modelo compartilhado dos quadrinhos também funciona nos cinemas, criando algo inovador e astuto – ainda que, na base, esteja apenas reciclando fórmulas que já foram utilizadas no cinema.

Assim, a popularização teve início. Podemos citar 2012 como o ano do “despertar” da Era de Ouro dos filmes de super-heróis, ainda mais considerando que duas das maiores bilheterias do ano pertenciam a personagens da Marvel e da DC Comics: a reunião d’Os Vingadores e a conclusão de uma saga em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

A partir daí, o público passou a tratar o “filme de super-herói” como um gênero cinematográfico, quase como se fosse drama, terror ou ação. E atualmente, fala-se inclusive de incluir esse tipo de “gênero” em estudos acadêmicos sobre cinema e classificações mais “oficiais” por parte dos estúdios.

E isso é bem prejudicial, tanto para o mercado quanto para o próprio filme de super-heróis.

Antes de mais nada, precisamos entender que o “filme de super-herói”, por si só, não constitui um gênero. Da mesma forma, podemos falar que a ficção científica e a fantasia também não são gêneros cinematográficos. E não entenda mal, isso não quer dizer que eles são “menos sérios” do que um drama ou um suspense. Mas eles são diferentes.

O filme de super-herói é, acima de tudo, uma forma de contar história. E isso abriga vários gêneros. Pegue a ficção científica por exemplo. Podemos ter um drama de ficção científica (A Chegada), um suspense policial (Blade Runner 2049), uma comédia (Barbarella), uma aventura (Star Wars) e até mesmo um musical (The Rocky Horror Picture Show).

Assim também podemos tratar filmes de super-heróis. Basta notar nos últimos anos, filmes como Logan, que é um drama com pitadas de western, formando um filme de gênero dentro de uma forma maior de contar histórias – que é, no caso, a trama do super-herói. Porém algumas pessoas parecem não gostar disso.

Quando se classifica o filme de super-herói como um gênero próprio, significa que os filmes pertencentes a essa “modalidade” precisam seguir um conjunto específico de regras e padrões para que sejam estabelecidos como parte de um conjunto. E é aí que se criam as fórmulas, que tantos falam sem saber sobre o que significa.

A Marvel Studios não patenteou fórmula alguma. Seus filmes são derivados da Jornada do Herói – que seguem de uma forma bem clara e bem-feita, por sinal. No entanto, quando falamos de gêneros, é esperado que todos os filmes sigam essa mesma tradição e tenham pouco espaço para mudança.

Claro que isso é ser um pouco reducionista com outros tipos de obra, especialmente fora do núcleo dos super-heróis. Nem todo drama é igual, nem toda comédia e assim por diante. A diferença, no entanto, é que esses gêneros possuem uma gama ilimitada de signos e símbolos que podem ser utilizados, criando coisas novas.

Quando falamos de filmes de super-heróis, temos – ainda – uma quantidade relativamente pequena de coisas que estão sendo feitas – e note, isso não significa que não tenhamos coisas novas que possam ser feitas. Nesse sentido, temos uma aproximação do que aconteceu com o western há alguns anos.

Quando se fala da “saturação” dos filmes de super-heróis, a primeira comparação que as pessoas sugerem é com o western. E, para ser sincero, temos algumas similaridades reais aqui. O que ferrou o western não foi a quantidade de filmes feitos. Sequer foi o “gênero” em si. O que acabou com esses filmes foi a repetição e a redundância.

Por mais que tivéssemos um ou outro filme que soubesse inovar ou simplesmente contar uma história de alta qualidade, o western se tornou refém do mesmo tipo de história e dos mesmos conflitos. Era quase como se todos os filmes seguissem uma fórmula pré-determinada, e não conseguiam fazer nada diferente disso.

Puxando para a atualidade, podemos sentir o mesmo com os filmes de super-heróis. Durante um tempo, tivemos uma fase em que todo filme de super-herói parecia o mesmo, com algumas pequenas mudanças. Pegue, por exemplo, O Espetacular Homem-Aranha, o primeiro Homem-Formiga e até mesmo Homem de Aço.

Os três são histórias de origem, e apesar de terem alguns méritos e qualidades particulares – como o humor de Homem-Formiga ou o visual e a atmosfera de Homem de Aço -, os três filmes parecem seguir o mesmo padrão, incorporando a Jornada do Herói no vigésimo volume, sem dar ao público espaço para novos elementos.

Felizmente, nos últimos anos, isso tem mudado aos poucos – principalmente graças à noção da “saturação” que muitos críticos impõem diariamente. Estúdios como a Fox já estão liderando esse caminho, criando filmes sumariamente diferentes, como Deadpool, Logan e, no futuro, Novos Mutantes, que vai inserir os super-heróis no horror.

A Marvel Studios, grande campeã do momento, também se tocou a respeito disso. Ultimamente, seus filmes têm ganhado proporções e tramas bem diferentes, criando algo honestamente novo e intrigante. Basta notar, por exemplo, Thor: Ragnarok – uma comédia –, Capitão América: O Soldado Invernal – um thriller político ou Pantera Negra – um drama geopolítico.

A DC está, aos poucos, tentando mudar seu planejamento. Se, até agora, todos os filmes seguem o feijão-com-arroz do “filme de super-herói”, o futuro que vem com Aquaman e Shazam! Promete filmes cada vez mais diferentes e únicos.

Enquanto isso, observamos alguns estúdios menores como a Sony, que ainda não entendeu a necessidade de criar algo novo e incorporar novos gêneros. O resultado pode ser lido em Venom, que além de seguir os moldes tradicionais, aposta em todos os clichês imagináveis para esse tipo de filme.

Para que o filme de super-herói possa prosperar, ele precisa imediatamente deixar de ser considerado um gênero, e passar a ser uma “forma de contar histórias” que, convenientemente, abarque vários gêneros. Só assim nos afastaremos da maldição do western e poderemos ver esse tipo de aventura por muitos anos adiante.

 

 

Na galeria abaixo, confira imagens de Vingadores: Ultimato, o filme de super-herói mais aguardado do próximo ano:

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sobre o autor Gus Fiaux

20 anos, cineasta. Jovem Vingador honorário, Fugitivo em negação, estagiário na Alias Investigações e mutante nível ômega nas horas vagas. || @gus_fiaux