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A lenda de Mulan: A verdadeira história!

- – “Que a luz do luar nos traga inspiração.”

Por Raphael Martins → Na semana passada, a Disney finalmente divulgou o trailer da versão em live action de Mulan, um de seus filmes animados mais queridos pelos fãs da casa do Mickey. Lançado em 1998, ele mostrava a jovem guerreira se alistando no exército chinês escondida de sua família para proteger seu velho pai, embarcando numa jornada que a colocaria frente a frente aos terríveis invasores Hunos.

Essa nova versão com atores anda preocupando bastante os fãs pela falta de similaridade com o desenho, mas enquanto faltam semelhanças com a animação, elas sobram se compararmos ao poema original que inspirou o filme da Disney.

Yifei Liu é a Mulan do live action da Disney

Os relatos sobre Hua Mulan (ou Fa Mulan), uma guerreira que se disfarça de homem e vai para a guerra, começaram a ser contados em um poema chinês datado do século VI d.c., chamado “A Balada de Mulan”. Embora a existência histórica dela nunca tenha sido comprovada, diz-se que ela teria vivido entre os séculos IV e V d.c., tendo seus feitos enaltecidos em histórias orais e no dito poema.

Com os séculos, boa parte da narrativa original acabou se perdendo, e a única versão conhecida que mais se assemelha a original teria sido escrita posteriormente, entre os séculos XI e XII. Uma outra história sobre ela foi escrita durante a dinastia Ming, e uma peça de teatro escrita pelo artista chinês Xu Wei foi feita no século XVI.

A versão mais conhecida do poema, que inspirou todas as outras, inclusive o filme da Disney, conta a história da heroína da China, enaltecendo seus feitos corajosos a nobreza de seu coração puro:

“Suspiro após suspiro,
Mulan tece diante de sua porta.
Ninguém pode ouvir o som do tear,
apenas os suspiros da pobre menina.
Pergunte-a quem está em seu coração,
ou quem está em sua mente.
Ninguém está em seu coração,
e ninguém está em sua mente.

 

Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,
Khan está convocando muitos soldados.
Uma dúzia de listas rascunhadas,
cada uma com o nome de seu pai.
O pai não tem um filho crescido,
Mulan não tem irmão mais velho.

 

Ela decide adquirir um cavalo e sela,
e alistar-se em lugar de seu pai.
No mercado leste, ela compra um cavalo,
no mercado oeste, uma sela.
No mercado norte, ela compra um freio,
e, no mercado sul, um longo chicote.

 

À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe,
ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas as águas do rio fluindo.
À alvorada, ela deixa o Rio Amarelo,
ao anoitecer, ela chega à Montanha Negra.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas os cavalos selvagens na vizinhança do Monte Yan.
Viajando dez mil milhas ao encontro da batalha,
passando montanhas e serras como se voando.

 

Ventos amargos carregam os sons do sino do vigia,
uma luz pálida brilha em sua armadura de ferro.
Generais morreram em uma centena de batalhas,
os soldados mais fortes retornaram após dez anos.
Eles retornaram para encontrar o imperador,
o Filho do Céu sentado no palácio imperial.

 

Ele recordou seus méritos em doze pergaminhos,
e concedeu centenas de milhares de recompensas.
O Khan pergunta a Mulan o que ela deseja,
um título de grande ministro não tem utilidade para Mulan.
Ela pede uma montaria rápida para levá-la a milhares de milhas,
e trazer a filha de volta para casa.

 

Quando pai e mãe ouvem sobre sua chegada,
eles se apoiam até o portão da cidade.
Quando a irmã mais velha ouve sobre sua chegada,
ela se adorna e a espera em sua porta.
Quando seu irmão mais novo houve sobre sua chegada,
ele afia a faca e prepara o porco e a ovelha.

 

‘Abram a porta de meu quarto ao leste, eu sento no sofá de meu quarto ao oeste.
Removo meu uniforme de guerra, e visto minhas roupas dos velhos tempos.’

 

De frente para a janela, ela prende seus cabelos macios como nuvem,
no espelho, ela põe flores amarelas.
No portão, ela encontra seus camaradas,
eles ficaram todos surpresos.
Lutando juntos por doze anos,
eles jamais suspeitaram que Mulan fosse mulher.

 

Lebres macho gostam de chutar e pisar,
lebres fêmeas têm olhos enevoados e acetinados.
Mas se as lebres correm lado a lado,
quem pode dizer qual é ele ou ela?”

Hua Mulan retratada em uma antiga ilustração chinesa

Assim como na animação da Disney, Mulan sai de casa escondida, se disfarça como um homem e vai à guerra, se saindo vitoriosa após provar seu valor no campo de batalha. Ela volta para casa, onde é recebida com festa por sua família e tudo termina bem. Mas as semelhanças acabam aqui.

De acordo com o poema, Mulan ficou nada menos que 10 anos longe de casa, enfrentando duras provações na guerra. É apenas após voltar para casa e se livrar de seu disfarce que os homens descobrem seu segredo, mas isso não é problema algum para eles, que a reconhecem como uma igual.

Em outra versão, Mulan se revela como uma mulher durante a batalha final, sendo seguida por seus companheiros sem hesitação, já que todos haviam combatido ao lado dela em incontáveis ocasiões e já conheciam sua destreza em combate.

Há também uma versão em que ela se casa com um soldado chamado Jin Yong (o equivalente de Shang do filme da Disney), e uma outra em que Mulan retorna para casa e descobre que seu pai havia falecido enquanto ela estava fora, o que a faz tirar a própria vida de tanta tristeza.

Mulan chama a atenção de Jin Yong e é reconhecida como igual por seus companheiros de batalha em antiga ilustração chinesa

Diferente do longa animado, não existia um Shan Yu para enfrentar ou um Mushu para guiá-la, mas todas as versões da história, inclusive a da Disney, tem um ponto em comum: reconhecida pelo imperador, que lhe oferece recompensas além da imaginação e até mesmo um alto cargo político, Mulan recusa tudo o que lhe é ofertado, desejando apenas voltar para casa e rever a sua família, o que lhe é garantido por um emocionado imperador.

As qualidades morais de Mulan, seu desejo verdadeiro e altruísta de ajudar seu pai e de “trazer honra à todos”, é algo sempre ressaltado e celebrado, não importa qual versão da história seja contada. Na China, a lenda de Mulan é extremamente conhecida, fazendo parte folclore do país, que a homenageia com estátuas e tributos todos os anos.

E se engana quem pensa que o live action baseado na animação de 1998 será o primeiro a contar a história de Mulan com atores reais. Em 2009, o cinema chinês produziu Mulan: Rise of a Warrior, que conta de maneira muito mais realista, séria e adulta a história da guerreira, mostrando todos os horrores da guerra, mas também a bravura e fibra da jovem que entrou para a história da China.

Tendo ela existido ou não, a coragem de Mulan ainda hoje inspira não só os chineses, mas todo o mundo. Seu exemplo tem há centenas de anos mostrado às pessoas que julgar a capacidade dos outros por sexo é estupidez e que mesmo uma jovem de 16 anos do século cinco pode tomar as rédeas da própria vida e mudar não só seu destino, mas o de toda a sua nação, se ela assim o quiser.

Veja imagens dos bastidores do live action de Mulan na nossa galeria:

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael