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A Saga do Clone: Conheça a história mais confusa do Homem-Aranha de todos os tempos!

- – Até hoje na infâmia!

Por Raphael Martins → A coisa não estava boa para a Marvel Comics nos anos 90. As vendas de seus títulos batiam recordes negativos, a qualidade das histórias variava entre “fraca” e “duvidosa” e a tradicional editora se viu à beira da falência.

Para reverter a crise, a casa das ideias vendeu várias de suas propriedades intelectuais para grandes estúdios de cinema, com a esperança de que poderiam reverter a situação com os lucros compartilhados entre eles de produções para as telonas e as telinhas, como era o caso do bem-sucedido desenho dos X-Men.

Enquanto isso, uma das pratas da casa andava bem mal das pernas. O Homem-Aranha, um dos personagens mais icônicos da editora, tinha uma das vendas mais baixas dentre todos os títulos da Marvel. O Peter Parker daquela época era bem diferente do amigão da vizinhança divertido, engraçado e sempre sem dinheiro das histórias de Stan Lee.

No lugar dele, tínhamos um Peter adulto, com um emprego fixo no Clarim Diário, responsabilidades, uma esposa e se preparava para ser pai. Sem falar que as histórias eram quase sempre pesadas, violentas e até depressivas. Ler Homem-Aranha não era mais divertido. Foi aí que a equipe criativa da Marvel decidiu abalar as estruturas da vida do personagem como jamais feito antes.

Nascia aí a Saga do Clone, um dos arcos mais lembrados do herói nos quadrinhos, mas não exatamente de uma maneira boa. Na verdade, é talvez a história mais confusa, conturbada e bagunçada de toda a existência do cabeça de teia.

A Saga do Clone: O começo era promissor, mas a alegria durou pouco

Apesar de ter sido feita nos anos 90, a Saga do Clone começa de verdade muitos anos antes, em 1975. Naquele arco, Peter Parker lidava com uma Gwen Stacy viva, que reapareceu na vida do aracnídeo como se nunca tivesse sido assassinada pelo Duende Verde naquela ponte. A alegria durou pouco, com Peter descobrindo que aquela Gwen era apenas um clone criado pelo vilão Chacal para destruí-lo.

Chacal depois cria um clone do próprio Homem-Aranha, mas cometeu o erro de deixar nele as memórias do original, o que também incluía seu forte senso de justiça. Isso o fez se sacrificar para salvar seu melhor amigo, Ned Leeds, que mais tarde se tornaria um dos Duendes Macabros. Vilão derrotado, dia salvo, e a vida seguiu seu curso.

Foi aí que, para agitar as vendas, o time criativo da Marvel trouxe o clone de volta, 20 anos depois e tendo sobrevivido à explosão. Vivendo a esmo por aí, entre uma cidade e outra, ele adota o nome de Ben Reilly e volta a aparecer na vida de Peter ao saber que a tia May está à beira da morte.

A princípio os dois não se bicam, como era de se esperar. Mas encorajado pela vontade de ajudar as pessoas e pelo próprio Peter, Ben assume a identidade de Aranha Escarlate e passa a combater o crime em Nova York, que acabou ganhando mais um escalador de paredes.

Os dois passam a lutar juntos, encarando vilões como o Chacal e Kaine, mais um clone descontrolado de Peter criado pelo vilão. A dinâmica entre os dois Aranhas deu muito certo e a Marvel voltou a sorrir quando percebeu que os títulos do herói aracnídeo estavam vendendo bem de novo.

Ben Reilly como o Aranha Escarlate: o sucesso foi quase instantâneo

Sabem quando uma série de TV faz sucesso, mas apesar de claramente já ter dado o que tinha que dar, continuam fazendo mais e mais temporadas para continuarem lucrando em cima dela? Foi exatamente isso que aconteceu aqui. Dito isso, a diretoria da Marvel Comics mandou a equipe de roteiristas continuar a Saga do Clone, estendendo a história para “explorar novas possibilidades”, como disseram na época.

Assim, o Homem-Aranha e o Aranha Escarlate continuaram vivendo suas aventuras, batalhando contra novos inimigos, como o Aracnocida e o Ogro, e passando por poucas e boas, o que culminou com Peter e Ben enfrentando um exército de clones de si mesmos.

Até que uma revelação botou tudo de cabeça para baixo: Peter Parker era o clone o tempo todo, e o verdadeiro Aranha era Ben Reilly. O personagem que os leitores acompanharam por mais de 20 anos desde a luta contra o Chacal nos anos 70 não era o verdadeiro Peter Parker. A vida do Homem-Aranha era uma mentira.

Foi exatamente nesse momento que as coisas começaram a desandar.

Os leitores não gostaram nada da novidade, bombardeando a caixa de correios da Marvel Comics com cartas de ódio e de revolta. Por outro lado, as revistas do Homem-Aranha nunca venderam tão bem. E de quebra, a editora viu nas mãos uma oportunidade de ouro para renovar completamente o herói.

Em um dado momento da saga, Peter perde os poderes e passa seu traje para Ben Reilly, que vira o novo Homem-Aranha e passa a combater o mal na cidade enquanto Peter pode curtir sua vida em paz com Mary Jane e sua filha, que já estava prestes a chegar. Com isso, a Marvel conseguiu exatamente o que queria: um Aranha solteiro, sem responsabilidades, sem história pregressa e com muitas possibilidades pela frente.

A ideia original da editora era que Reilly assumisse a identidade do herói por um tempo, com Peter voltando a ativa depois e tudo voltando para seu lugar. Mas os bastidores da Marvel haviam se tornado um campo de batalha. A saga, que deveria durar apenas seis meses, já estava com quase três anos de duração e ninguém sabia mais o que fazer com ela.

Ben Reilly agora era o único Homem-Aranha, e tinha chegado para ficar

Com o cargo de editor-chefe transformado em uma verdadeira dança das cadeiras, com gente saindo e entrando, foi decidido que Peter Parker era passado e que o Aranha agora seria Ben Relly de vez. Isso gerou uma cisma dentro da Marvel, com roteiristas e artistas claramente se opondo a aquela ideia absurda.

Toda essa confusão atrás das cortinas estava se refletindo na qualidade das histórias, que sempre tinham alguma reviravolta sem sentido e nem um pouco empolgante, e as vendas das HQs do herói despencaram. Peter Parker precisava voltar. O problema é que ninguém sabia como. Foram meses e meses de reunião acaloradas na sala dos roteiristas e várias ideias sendo jogadas no reino das possibilidades para encerrar aquela história de uma vez.

Algumas delas eram bem absurdas. Em uma das ideias propostas, Ben Reilly não seria um clone, e sim um Peter Parker do futuro enviado ao passado por Mefisto e preso em um loop temporal. Mas no fim das contas, todos entraram em um consenso e decidiram reviver um velho inimigo do Homem-Aranha, que todos julgavam estar morto há décadas.

Norman Osborn, o Duende Verde, estava de volta.

O retorno de Norman Osborn: a culpa era dele o tempo todo

É revelado que Norman Osborn havia sobrevivido à luta na ponte que terminou com Gwen Stacy morta e havia arquitetado toda aquela trama dos clones até aquele momento, começando pelo confronto com o Chacal nos anos 70. Ben Reilly descobre que Osborn havia mandado manipular os DNAs dele e de Peter, fazendo com que eles confundissem quem era o clone e quem era o verdadeiro e gerando toda a desgraça que se seguiu.

Depois de um confronto definitivo com o Duende Verde, Ben se sacrifica por Peter, virando pó nos braços do herói quase como se tivesse sido vítima do estalar de dedos de Thanos no cinema, provando de uma vez por todas, que Peter Parker era o verdadeiro e único Homem-Aranha.

A morte de Ben Reilly: então ele era o clone? Ok…

A Saga do Clone pode ser polêmica, bagunçada e desastrosa, mas isso não quer dizer que ela não tenha seus méritos. Todo o começo deste arco vale a pena ser lido, principalmente no que diz respeito ao Homem-Aranha e ao Aranha Escarlate lutando juntos. Escarlate, inclusive, continua bastante popular entre os fãs do aracnídeo, mesmo depois de tantos anos e de tantas mudanças, inclusive de identidade.

Em 2009, Tom DeFalco, um dos antigo editor-chefe da Marvel na época em que todo o rolo com os clones aconteceu, chegou a relançar a história “da maneira correta”, com as ideias originais suas e de sua equipe criativa para a história, algo que mostrou que as coisas poderiam ter sido melhores se a produção dela não tivesse sido tão conturbada.

Para que se faça justiça, o Homem-Aranha tem histórias muito piores do que a Saga do Clone, como O Outro e a inominável Pecados Pretéritos. Mas de qualquer jeito, esse arco serve como um exemplo de como não se conduzir uma história, sendo um testamento para os futuros roteiristas, editores e quadrinistas que trabalharam nos títulos do escalador de paredes nos anos que se seguiram.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael