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Cavaleiros do Zodíaco da Netflix: Entre o novo e a nostalgia!

- – O cosmo voltou, mas ele ainda brilha intensamente?

Por Raphael Martins → Em 2017, a Netflix anunciou que faria uma adaptação do clássico oitentista Saint Seiya, mais conhecido no Brasil como Os Cavaleiros do Zodíaco. O anime chegou aqui em 1994 e marcou a vida de quem viveu aquela época com tanta força que até hoje a série continua popular.

Aos poucos, novidades sobre a releitura, produzida pela Toei Animation em parceria com a gigante do streaming, foram deixando os fãs mais antigos da série cada vez mais preocupados, com o ápice dessa preocupação se manifestando quando foi noticiado de que a nova versão mudaria o sexo do personagem Shun de Andrômeda.

Embora houvesse quem aguardava a série com interesse, muita gente não gostou. E agora, dois anos depois do anúncio, a Netflix finalmente disponibilizou a série em seu catálogo, colhendo mais críticas desfavoráveis do que favoráveis. A série foi produzida para ser um sucesso, é claro, ninguém joga para perder. Mas se não for, de quem é a culpa? Do show, que fracassou em atingir seu público alvo, ou de uma parcela do público que se recusa a aceitar algo novo?

Primeiro, é preciso deixar bem claro para quem a série foi feita: para o mercado internacional. Em outros países, como França, México, Itália e Brasil, a marca é bem mais forte até mesmo que no Japão, seu país de origem, de modo que cada novo projeto envolvendo Cavaleiros do Zodíaco é milimetricamente pensado para agradar a esse público estrangeiro.

Mas ainda há um território onde a série não conseguiu emplacar: o disputadíssimo mercado americano. Por lá, a série é pouquíssimo conhecida, e não por falta de tentativa. Em 2003, a produtora americana DIC reformatou a série especialmente para os Estados Unidos, onde foi exibida pelo Cartoon Network naquele mesmo ano. Até a abertura original, a aclamada “Pegasus Fantasy”, foi substituída por uma com cenas dos episódios, ao som da música “I Ran”, da banda Flock of Seagulls, performada pelo grupo Bowling for Soup.

Pouco tempo depois, bonecos baseados na série chegaram às lojas americanas… e não venderam nada. O público não comprou a ideia e não conseguiu se conectar à história, mas também pudera: era um anime produzido no meio dos anos 80, chegando a um novo território pela primeira vez em plena década de 2000. E assim, a primeira tentativa da Toei de fazer Cavaleiros funcionar nos States fracassou.

Agora, com essa nova versão, a Toei tenta mais uma vez tornar a saga dos defensores de Atena um sucesso nos Estados Unidos, além de conquistar o já conquistado público cativo desde os anos 90. Embora a tentativa seja louvável, ela se depara com alguns obstáculos. O primeiro deles é a série original.

A releitura tem seus méritos, há de se admitir. O ritmo com que a história é contada é bem melhor e mais dinâmico do que o da série clássica, resolvendo até mesmo alguns problemas de lógica na trama e melhorando alguns personagens, como Mitsumasa Kido e até o brucutu Cassius. Mas ao mesmo tempo, falta à série a profundidade que o clássico dos anos 80 tinha.

Não há muito tempo para nos aprofundarmos na vida e no treinamento dos personagens principais, tampouco em seus conflitos pessoais. Os combates tem pouca intensidade e menos ainda o impacto que tinham anteriormente, onde a sensação de perigo de morte era real.

O ponto mais forte da série clássica, além das lutas, era a forma como o espectador se conectava e se apegava a cada personagem, ao ponto de defendê-lo com unhas e dentes, algo que acontece em discussões pela internet até hoje. No novo, isso não ocorre. É tudo raso demais.

Eduardo Miranda, antigo chefe da divisão de cinema da extinta Rede Manchete e o grande responsável pela exibição do anime nos anos 90, recentemente fez a seguinte reflexão em seu canal no Youtube: se a série original não existisse e nós tivéssemos apenas esta nova versão, ela faria sucesso? Ela entraria no coração das pessoas como a clássica entrou?

É claro, não somos o público alvo. A Toei e a Netflix não se deram ao trabalho de produzir uma série inteiramente nova apenas para agradar trintões e saudosistas, fizeram para um novo público, garotos entre os 9 e 15 anos. Não podemos falar por nenhum deles.

Os cavaleiros de bronze reunidos juntos de Atena na nova versão da Netflix

O segundo problema, e talvez o maior deles, são os fãs da série clássica, aqueles que cresceram amando fervorosamente a série que marcou sua infância. Embora haja exceções, eles são mais conhecidos por terem uma lealdade grande ao anime original e à visão saudosista de uma perfeição que nunca existiu, acabando por rechaçar toda e qualquer nova tentativa da Toei de reviver a franquia.

Séries produzidas anteriormente, como Os Cavaleiros do Zodíaco: Ômega, Saint Seiya: Soul of Gold (que até hoje não foi lançada no Brasil… por que será?) Saintia Sho e até mesmo o filme em computação gráfica lançado em 2014, foram duramente criticadas por estes fãs, embora com uma certa razão. O derivado que chegou mais próximo de conseguir se tornar uma unanimidade positiva entre os fãs de Cavaleiros foi The Lost Canvas, que nem produzida pela Toei era e que acabou cancelada após apenas duas temporadas.

Isso pode ser um grande problema para a Toei, que está perdendo dinheiro dessa parcela do público, mas um problema maior ainda para a base de fãs, que pode ficar sem mais nada de novo relacionado à série.

Afinal, por que a produtora japonesa se daria ao trabalho de trabalhar com uma marca cuja cada nova tentativa de revival fracassa, e ainda mais com uma que já não faz tanto sucesso nem em seu país de origem? Como agradar a um público que parece fazer toda questão de não ser agradado e que ainda está preso ao passado?

A saudosa série clássica: ela marcou os fãs mais velhos com tanta intensidade que é difícil querer outra coisa

Não temos uma resposta para isso, e aparentemente, nem a Toei, que graças a Atena, continua a trabalhar com a marca, mesmo com as críticas negativas. Mas podemos chegar a duas conclusões. Para a tradicional produtora japonesa, falta um equilíbrio maior entre o novo e o velho, algo que deveria ser o principal foco, ao invés de forçar a série e condensar justamente os aspectos que a tornavam poderosa só para se adequar a um público que nunca a quis.

Já para os fãs das antigas, falta mais boa vontade na hora de abraçar o novo e maturidade para assistir a uma obra por completo antes de criticá-la. Atena, a deusa da sabedoria, agradece.

Veja imagens de Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, na nossa galeria:

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael