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[CRÍTICA] Brinquedo Assassino – O melhor episódio de Black Mirror do ano!

- – Novo remake se distancia do original, mas abre espaço para uma nova franquia!

Por Gus Fiaux → Nesta semana, chegou aos cinemas o remake de Brinquedo Assassino. Uma das franquias mais longevas de horror, agora em um formato repaginado. Sai de cena o subtexto sobrenatural e entra uma crítica ferrenha à dependência pela tecnologia.

Apesar da falta de Don Mancini e outros criadores da saga original, o remake se estabelece como o começo de uma nova franquia, cheio de potencial para mais continuações. E aqui, você pode conferir o que nós achamos do novo filme!

Título: Brinquedo Assassino (Child’s Play)

Direção: Lars Klevberg

Roteiro: Tyler Burton Smith

Ano: 2019

Data de lançamento: 22 de agosto (Brasil)

Duração: 90 minutos

Sinopse: Uma mãe presenteia seu filho de 13 anos com um boneco, sem saber de sua natureza sinistra. Ele então começa a matar

Brinquedo Assassino – O melhor episódio de Black Mirror do ano!

Em 1988, começava uma das sagas mais intrigantes do horror contemporâneo. Brinquedo Assassino foi criado por Don Mancini – como uma forma de criticar os perigos da publicidade infantil na época (discorremos toda a história da franquia aqui). No entanto, como Hollywood está sempre reciclando suas próprias ideias, chega aos cinemas uma nova versão da franquia, alterando drasticamente os rumos do boneco maldito Chucky.

No novo filme, conhecemos uma nova versão do brinquedo – e esqueça Charles Lee Ray. O Chucky do novo filme é um produto dessa era, e em 2019 estamos mais preocupados com o avanço desenfreado da tecnologia do que com bandidos envolvidos com vodu e magia sombria. Em vez de ser o clássico boneco Good Guy, seu nome é Buddi, e ele é seu amigo para todas as horas.

O boneco não é vendido como um simples brinquedo, mas sim como um assistente inteligente para todos os afazeres domésticos. Ele pode tanto lhe cantar canções para ninar como também chamar seu uber. Ele é um ser movido à inteligência artificial, fruto de trabalho escravo e exploração.

E é isso que o transforma em um pesadelo.

Já no começo do filme, somos apresentados a dois outros personagens muito importantes: Andy Barclay (Gabriel Bateman) e sua mãe, Karen (Aubrey Plaza). Apesar de serem os mesmos nomes dos personagens do longa original, eles estão bem longe de serem os protagonistas do filme de 1988. A vida dos dois é trazida para a realidade.

E mais do que isso, os atores também tiveram mais liberdade para compor seus personagens. Bateman interpreta um Andy mais esperto e inteligente, bem diferente do garoto ingênuo interpretado por Alex Vincent na franquia original. Já Plaza transforma sua personagem em uma verdadeira caricatura. Uma mãe com problemas reais (mas comicamente exagerados), que lembra muito outros papéis da atriz, sobretudo em Parks & Recreation.

Isso tudo transforma o filme em uma sátira muito mais precisa que o primeiro filme. Se o humor do original tocava o politicamente incorreto, com um boneco “inocente” falando palavrões e empunhando facas, o novo filme – sem excluir esse tipo de comédia – arranca risos nervosos, pela eminência da tragédia e pela quebra da família graças a um objeto que vai se provando cada vez mais perigoso.

E o filme acerta justamente em sua crítica: a dependência da tecnologia. Tudo bem que, em Brinquedo Assassino, isso é elevado a um nível que nós ainda não conhecemos, mas não deixa de ser uma ameaça voraz, que paira cada vez mais no horizonte. Por conta disso, o filme consegue ser o melhor episódio de Black Mirror em 2019 – não que isso seja muito difícil.

Agora, vamos falar da estrela do filme: o boneco Chucky.

Na saga original de filmes, Brad Dourif deu voz e vida ao boneco. É difícil, a primeira vista, deixar isso de lado para analisar o novo longa, já que o ator não retornou – tendo sido substituído por Mark Hamill. Mas quando o boneco começa a traçar suas artimanhas, logo temos a consciência de que estamos diante de outro personagem. O Chucky de Hamill não é tão boca suja ou sarcástico quanto o de Dourif, mas consegue aterrorizar com alguns recursos novos – como, por exemplo, os olhos brilhantes que sempre parecem estar à espreita.

Entretanto, nem tudo funciona – principalmente em termos visuais. A marionete usada aqui causa um estranhamento absurdo, e por mais que isso seja nitidamente intencional, ainda consegue nos tirar bastante da trama. Há mais de vinte anos, o Chucky do primeiro filme conseguia ser mais fluido em sua movimentação, tornando-se uma figura muito mais ameaçadora. O rosto dessa versão nova é a prova disso: temos medo, mas no fundo, queremos rir de tão feio que ele é.

Quanto ao roteiro, assinado pelo canadense Tyler Burton Smith, há altos e baixos. Talvez, sua melhor qualidade seja a construção da tensão que vem com o boneco. No começo, o filme apela para algo mais engraçado e espirituoso, e aos poucos vamos descendo em direção à loucura, conforme Chucky se manifesta cada vez mais perigoso. Isso é um ponto bem positivo, já que não podemos acompanhar o pavor crescente sofrido pelo próprio Andy.

Por outro lado, alguns personagens carecem de desenvolvimento. A exemplo disso, podemos citar alguns adolescentes que moram no mesmo prédio que Andy e que, aos poucos, se tornam seus amigos. Nenhum deles tem um profundo desenvolvimento e eles são sumariamente descartados da grande “batalha final” entre Andy e Chucky, por mais que sejam de grande ajuda. Isso empobrece o próprio Andy, que mesmo sendo um personagem esperto, se torna o típico protagonista de filmes de terror com atitudes estúpidas.

Por outro lado, há outros personagens que enriquecem a trama. Bryan Tyree Henry interpreta o Detetive Mike Norris, que acrescenta uma camada a mais na trama por ser um policial que tem que lidar com o rastro de sangue deixado pelo brinquedo assassino. Ele é um personagem cativante e divertido, que poderia ser mais bem-aproveitado na trama, mas que acaba sendo vítima de algumas conveniências de roteiro. Há também Shane (David Lewis), o novo namorado de Karen, que chega a servir como um antagonista secundário para a trama.

Mas ainda assim, por mais que os coadjuvantes mais atrapalhem a trama do que ajudem, não há como dizer que o reboot é ruim. Claro, você precisa ir de mente aberta, sem tentar traçar comparações o tempo todo com a saga original de Don Mancini, mas quando mergulha na trama, é mais fácil absorver o que o novo filme quer dizer – e por mais que, no fim das contas, não seja nenhum clássico instantâneo do gênero, é um filme divertido e despretensioso.

O diretor norueguês Lars Klevberg se esforça para criar uma atmosfera original – e podemos sentir isso ao máximo – ainda que haja várias semelhanças e homenagens à franquia original. Aliás, falando no cineasta por trás do novo longa, é bom vê-lo fazendo um filme minimamente decente, após a verdadeira desgrameira que foi seu trabalho anterior, o penoso Polaroid. 

Aqui, ele abusa de bons planos na fotografia, além de conseguir contrastar de forma muito prática tons mais azuis e acinzentados, representando a vida difícil de Andy e Karen, com cores vibrantes e artificiais, principalmente no que diz respeito ao figurino do boneco e alguns comerciais de TV que mostram toda a utilidade do Buddi. Aliás, falando nesses comerciais, prepare-se para ficar com a viciante – e tenebrosa – música-tema do boneco, cantada por Hamill, na sua cabeça.

No fim das contas, o remake de Brinquedo Assassino não se sobressai como nada inovador e nem será tido, nas listas de fim de ano, como o melhor filme de horror de 2019. No entanto, ele está longe de ser – como alguns previam – a ruína da franquia. Assim como o longa original – e que a nostalgia nos perdoe -, não é um filme necessariamente marcante ou memorável, mas é um começo relativamente divertido para o que pode vir a se tornar uma boa franquia.

Com seus olhos mirados em uma crítica mais direta e “realista”, que vira nossos olhos do horror mascarado em bandidos para a entrada cada vez mais constante da tecnologia em nossos lares, o novo longa consegue ser igualmente engraçado e violento – aliás, prepare-se para umas cenas de morte caprichadas, com requintes de crueldade que só esse boneco maligno pode ter.

Mas no fim de tudo, não passa de uma brincadeira de criança… não é?

 

Veja também: Brinquedo Assassino – Novo vídeo do reboot mostra Chucky em uma brincadeira letal!

Na galeria a seguir, fique com cartazes do longa:

Brinquedo Assassino está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux