Capa da Publicação

Desenterrando um Clássico – A Hora do Espanto

- – Vampiros assombram os anos 80!

Por Gus Fiaux → A década de 80 foi um período muito próspero para os cinemas, rendendo clássicos que atiçam nossa nostalgia até hoje. Vários gêneros tiveram exemplares brilhantes, desde a fantasia infanto-juvenil ao horror, criando criaturas icônicas e absolutamente memoráveis.

No campo do terror, tivemos alguns mestres criando suas criaturas com afinco, resultando em franquias adoradas como A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, Hellraiser, Poltergeist e Brinquedo Assassino. No entanto, algumas pérolas também surgiram nas beiradas, e é uma pena que elas não sejam tão lembradas quanto seus contemporâneos.

Esse, por exemplo, é o caso de A Hora do Espanto.

No começo dos anos 80, o roteirista e diretor norte-americano Tom Holland (não confundir com o astro britânico que interpreta o Homem-Aranha nos cinemas) concebeu a ideia de fazer um filme de vampiros situado em um cenário suburbano, com elementos da fábula do “Pastor Mentiroso e o Lobo” (uma história sobre um menino que mentia constantemente sobre a aparição de um lobo e, um dia, era surpreendido por um lobo real – mas ninguém acreditava mais nele).

Cremdeuspai

Aos poucos, foi se definindo o que seria um dos melhores filmes de horror com vampiros – bem como um dos melhores exemplares do subgênero terrir, que mistura terror com comédia.

Na trama, o jovem Charley Brewster vivia com sua mãe em um bairro pacato de Los Angeles, até o dia em que percebe uma movimentação estranha na casa ao lado. Após uma série de assassinatos misteriosos, ele começa a suspeitar que seu vizinho, o sensual e enigmático Jerry Dandrige, possa ser um vampiro.

Jerry Dandrige e seu sorriso encantador

Aos poucos, suas suspeitas vão se confirmando, até o momento em que Jerry começa a ameaçar sua vida. Charley então parte em busca da ajuda de Peter Vincent, o astro de uma fracassada série de TV de horror que também se diz ser um “caçador de vampiros”. Embora relutante, a princípio, o ator começa a ajudá-lo e logo se vê em uma noite alucinante de susto e morte.

O filme foi lançado em 1985 e tornou-se a segunda maior bilheteria de horror do ano, perdendo apenas para A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy. No entanto, diferente dos outros filmes da época, A Hora do Espanto não chegou a se tornar uma franquia interminável. Na verdade, só uma sequência foi produzida, lançada no ano de 1988 e sem muito burburinho.

Mas a longevidade da franquia não é nenhum detrator a respeito de sua qualidade. O primeiro filme manteve-se como um dos melhores exemplares dos anos 80, trazendo um trabalho incrível de maquiagem e efeitos visuais. Para se ter uma ideia, foi o primeiro filme de vampiros a gastar mais de US$ 1 milhão em efeitos visuais e especiais.

Mas não é apenas seu visual que se destaca. A história, apesar de macabra, se desenvolve com uma fluidez muito divertida, aliada a personagens verdadeiramente cativantes. O Charley de William Ragsdale é um protagonista bem diferente do que esperávamos, por ser um garoto “normal” metido em uma encrenca sem limites.

Já Peter Vincent, interpretado por Roddy McDowall, não foge disso também. Visto como um “charlatão” a princípio, ele precisa passar por maus bocados para auxiliar Charley a deter o vizinho maligno. E falando no diabo, Chris Sarandon dá um show de interpretação no papel de Jerry Dandrige.

Mais um exemplo de vampiros lindos e adoráveis

O vampiro vizinho não é apenas uma criatura tenebrosa capaz de se transformar em um monstro assustador. Ele também tem um carisma surpreendente, que o torna ainda mais perigoso, além de ser um enigma tanto para Charley quanto para o amigo do garoto, Evil Ed, e sua namorada, Amy Peterson.

Ele seduz suas presas com um ar típico do que Bela Lugosi ou Christopher Lee faziam em suas versões do Drácula, mas de uma forma muito mais “moderna” e descolada. Nada do vampiro matusalém que vive em um castelo sombrio e fala em dialeto vitoriano com sotaque romeno.

A sequência, lançada em 1988, não é menos interessante – por mais que não tenha sido muito bem recebida pela crítica. Em A Hora do Espanto 2, vemos como a vida se passou alguns anos depois que Charley e Peter derrotaram Jerry. O garoto agora é um universitário, que concilia seu tempo com sua nova namorada, Alex Young, e uma terapia para tentar esquecer dos eventos do primeiro filme.

Peter Vincent continuava um fã do oculto e sobrenatural, mas nutria pouco contato com o garoto, que estava tentando a todo custo colocar na sua cabeça que o terror vivido no filme anterior não passava de um delírio coletivo. Tudo muda quando uma misteriosa vampira surge e ataca Charley e Alex.

No fim das contas, trata-se de Regine Dandrige, que decide aparecer para se vingar pelo assassinato de seu irmão, Jerry. Porém, a ameaça é ainda maior, porque ela traz consigo um verdadeiro exército de vampiros, cada qual com habilidades e aparências ameaçadoras.

A dupla reunida novamente – mas Charley dessa vez com uma namoradinha nova.

A Hora do Espanto 2 parte muito mais para o trash e para o gore. Há algumas cenas bem sanguinárias, mas nenhuma fica tanto na cabeça quanto a cena em que um dos asseclas de Regine, que passa o filme inteiro devorando insetos, tem seu bucho rasgado, revelando uma quantidade assustadora de vermes e larvas.

Apesar disso, o filme também conta com bons efeitos e o retorno dos personagens marcantes do primeiro filme. Apesar da direção ter passado para Tommy Lee Wallace (o diretor de Halloween 3: A Noite das Bruxas e da minissérie IT: Uma Obra-Prima do Medo), temos um filme tão estilizado quanto o primeiro e que se aproveita bastante da época, gerando um clima nostálgico até hoje.

O original tinha vampiro virando lobo. Nesse, eles viram até carniça.

Regine, interpretada por Julie Carmen, vinha como uma personagem tão ameaçadora quanto Jerry, embora seja realmente ofuscada pela interpretação de Chris Sarandon. No entanto, ela e seus capangas vampiros são verdadeiros seres das trevas, que apavoram o trio de protagonistas.

O sucesso do primeiro filme era uma garantia de lucro para o segundo. No entanto, o longa passou por um problema devastador: pouco antes de sua estreia, o chefe da Carolco Studios, a produtora responsável, foi assassinado pelos seus dois filhos. Isso fez com que os planos de divulgação fossem apressados. O longa acabou indo parar nos cinemas por pouco tempo e depois foi lançado diretamente para VHS, de forma que muitos fãs do primeiro filme sequer sabem que existe uma sequência.

Isso obviamente matou os planos para um terceiro filme… até que a era dos reboots e remakes começou.

Em 2011, foi lançado o remake de A Hora do Espanto, usando o mesmo título do filme original. Dirigido por Craig Gillespie, o filme segue toda a trama do longa de 1985, apenas trazendo a história para o presente e incorporando novos atores. O finado Anton Yelchin recebeu o papel de Charley, enquanto Jerry passou a ser vivido por Colin Farrell.

Caçadores de vampiros do Século XXI

Para o papel de Peter Vincent, o diretor optou por alguém mais jovem e excêntrico, chamando David Tennant para o papel. O resultado é um filme que não desrespeita o original e tem seu charme, apesar de também não ser nenhuma obra-prima.

Corre que o vampiro tá put*!

De certa forma, os atores e o diretor conseguiram pegar a trama e reformulá-la em sua própria interpretação. Algumas pequenas alterações foram muito bem-recebidas – como, por exemplo, a participação mais ativa da mãe de Charley, interpretada aqui por Toni Collette.

(Curiosidade: o filme também contou com uma mãozinha de Steven Spielberg, que chegou a desenvolver alguns efeitos de maquiagem para o visual de Jerry, além de gravar uma cena para o longa.)

Infelizmente, a franquia termina aqui para muitos fãs. Em 2013, foi lançado, direto para DVD e Blu-Ray, a nova versão de A Hora do Espanto 2, que deveria ser uma continuação direta do filme de 2011. No entanto, o roteiro era uma bomba tão grande que o elenco do filme se recusou a voltar e ele nem sequer merece uma menção mais detalhada.

Vampiros sempre fizeram parte da cultura pop, e A Hora do Espanto talvez seja um dos melhores exemplares dos filmes envolvendo essa criatura mitológica. Aqui, temos uma franquia que se apega fielmente à tradição dos seres hematófagos, mas modernizada o suficiente para se adequar ao público mais contemporâneo. Para quem gosta de horror, comédia e terrir, fica a recomendação de um clássico que merece mais amor.

 

Na galeria abaixo, fique com os cartazes da franquia:

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux