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Neon Genesis Evangelion: Popular e atual, mais de 20 anos depois!

- – “Enquanto Deus permanecer em seu céu, tudo na Terra estará bem.”

Por Raphael Martins → No meio dos anos 90, a animação japonesa, antes consumida apenas por uma parcela mínima de um nicho do público, explodiu em popularidade no mundo inteiro como nunca antes. Alguns deles, como Dragon Ball Z e posteriormente Naruto, se tornaram tão famosos que seus personagens são facilmente reconhecidos até por quem não tem o hábito de assistir animes.

Mas existem outras obras que transcendem a simples condição de “anime famoso” e acabam se tornando pedras fundamentais do gênero em si, clássicos atemporais que marcam tanto o público – e o mercado – que se tornam inesquecíveis, sempre aparecendo na lista de animes recomendados para quem quer se iniciar nesse mundo.

Neon Genesis Evangelion é uma dessas obras. Assim como Akira antes dele, a história da luta das crianças escolhidas contra os anjos do senhor enviados para promover o fim dos dias venceu o limite do tempo e continua tão popular e influente como quando estourou nas TV japonesas na década de 90. Mas por que?

Ano após ano, temporadas de anime vem e vão, cada uma com seus sucessos e fracassos. Alguns se tornam sensação na internet e fazem barulho por um certo tempo, gerando memes e engajamento. Outros fazem um sucesso maior e ganham sequências, se aproveitando de sua popularidade enquanto podem. Mas poucos se tornam clássicos verdadeiros, sendo lembrados por décadas.

Para entendermos por que isso acontece, devemos levar em consideração uma série de fatores. Qualidade da trama, da animação e personagens cativantes são essenciais para isso, mas existem séries que tem todas essas coisas e não chegam lá.

Talvez a resposta do porquê isso aconteceu com Evangelion esteja em outro lugar. Um lugar onde, assim como os personagens da série, nenhum de nós costuma procurar: dentro de nós mesmos.

O primeiro ponto, talvez o fundamental, seja a identificação com os personagens que povoam a saga. Shinji Ikari, protagonista da historia, está longe de ser um herói destemido de anime shonen, que pilota corajosamente seu Eva para proteger o mundo e todos os que vivem nele. Muito pelo contrário, ele é, como qualquer adolescente de 14 anos, cheio de problemas de autoestima, com uma necessidade dolorosamente real de ser aceito e amado, principalmente pelo pai que sempre o evitou.

A passividade de Shinji diante dos acontecimentos que o cercam no começo da história pode ser confundida com fraqueza, fazendo com que um espectador exposto por muito tempo a “shonens de lutinha”, com heróis superpoderosos e cheios de determinação, passem a odiá-lo. Mas é exatamente por isso que Evangelion não é para qualquer um: é preciso ter uma empatia pelo próximo e um senso maior de realidade para se envolver de verdade com a jornada dos personagens.

Os principais personagens de Evangelion: no fim do dia, são apenas adolescentes de 14 anos

Shinji não pilota o Eva porque quer. Na grande maioria das vezes, ele nem mesmo sabe por que o faz. Ele não tem um desejo ardente de proteger o planeta e todos os que vivem nele. Ele luta por motivos que seriam egoístas para qualquer outro protagonista de shonen. Sua luta é por aprovação, por auto-afirmação, pelo pequeno grupo de pessoas que o cerca, por sobrevivência, até pela própria falta de um propósito para se lutar. Ele luta porque não há, literalmente, mais nada para ele.

Do ponto de vista de Shinji, vemos que não existe nada de bom em se pilotar uma unidade Evangelion. A experiência rendeu ao garoto nada além de ainda mais problemas psicológicos, crises de ansiedade e de pânico e uma torturante pressão para atender às expectativas de um pai que talvez nunca olhe para ele com uma expressão de orgulho ou reconhecimento.

Você quer pilotar um Gundam. Você quer pilotar um Macross. Você quer pilotar um Franxxx. Mas você não quer pilotar um Evangelion de jeito nenhum. E essa quebra de padrão, essa consciência que só vem quando se cria um elo verdadeiro entre personagem e espectador, é uma das muitas coisas nas quais a série se diferencia de qualquer outra coisa feita antes ou depois.

Shinji não sabe o que quer da vida. Mas quem realmente sabe?

Asuka, por sua vez, a primeira vista pode parecer insuportável. Ela é chata, mandona, grossa e com um ego tão inflado quanto um balão quente, mas isso é porque ela é alguém que não sabe o que fazer com os próprios sentimentos. Como qualquer adolescente real.

Asuka se culpa pelo que aconteceu à sua mãe, mesmo sabendo, no fundo, que não poderia ter feito nada. Ela se odeia por não conseguir ser sincera nem mesmo consigo própria, inventando desculpas e culpando outras pessoas numa tentativa de se eximir. Ela sabe que está errada, mas é incapaz de aceitar, criando muros em torno de si mesma e se isolando do resto do mundo, vivendo em solidão e reclamando aos quatro ventos por problemas que ela mesma criou.

Exemplos disso no mundo real, ou até mesmo na sua vida aí do outro lado da tela, não faltam.

Asuka sofre por não conseguir ser sincera nem mesmo consigo mesma

Rei não sabe quem ela mesma é. Ela não se conhece, e por não se conhecer, não vê muito valor em conhecer outros. E no contexto da história, ela tem toda razão para isso, tanto para seu desconhecimento quanto a si própria quanto a não ser muito “adepta a viver”, nas palavras de Ritsuko. Mas deixando as circunstâncias fantásticas da história de lado, todo mundo tem um pouquinho de Rei.

A jornada do auto-conhecimento é parte da jornada da vida de todas as pessoas. Dedicamos muitos anos das nossas vidas tentando descobrir quem realmente somos, do que nós somos capazes, quais são os nossos limites. E essas indagações só vem com a convivência com outros, como acontece com Rei, que vê sua vida mudar aos poucos apenas depois de conhecer Shinji e Asuka.

Gendou é frio e calculista, mas demonstra calor humano e amor ao interagir com Rei. Misato é bagunceira e desleixada, mas extremamente séria e centrada quando a situação pede. Ibuki não é só a “nerd da cadeira”, ela tem sentimentos escondidos por sua superior, Ritsuko, que também tem seus próprios segredos para esconder.

Ninguém, ou quase ninguém, é bidimensional em Evangelion, todos tem suas motivações e traços de personalidade, distintos inclusive em si mesmos. Os personagens da série tem muitas camadas e só vamos descobrindo-as aos poucos, como quem corta as várias camadas de uma cebola lentamente.

Rei Ayanami: a jornada dela pode ser a sua também

Outro ponto importante que poderia justificar a longevidade da popularidade de Evangelion é seu viés psicológico, que bebe da fonte de grandes filósofos e pensadores para compôr sua história e a psiquê de cada um de seus personagens.

A série se apoia nisso para ajudar a contar sua narrativa, misturando clichês de anime comuns com filosofia, mitologia cristã e medos perenes dos seres humanos, como isolamento, solidão, desamor e desespero diante de acontecimentos cujo controle ninguém poderia ter. E faz tudo isso com um equilíbrio difícil de se ver em outras obras que tratam de temas mais complicados.

Como o antigo material promocional da série para o extinto canal de TV a cabo Locomotion dizia, Evangelion reacendeu aquela que é a maior dúvida da civilização ocidental: se o homem é obra de Deus, ou este um produto do homem. E fez isso com robôs gigantes, garotas bonitas e combates viscerais.

Dessa maneira, o anime conseguiu chamar a atenção tanto do público que só queria ver anjos se matando quanto de quem queria viver uma experiência mais forte e marcante, pegando ainda, meio que sem querer, o adolescente “adultão cult” com necessidade de auto-afirmação que jura ter entendido toda a trama desde o começo para impressionar os amigos.

As unidades Evangelion: a única linha de defesa da humanidade contra os anjos

Tudo isso contribui para a terceira, mas não menos importante, razão da relevância duradoura da série: seu fator de replay. Não é comum entre os fãs de anime que tenham pegado a série na adolescência revisitem a obra alguns anos mais tarde, com uma mente mais velha, aberta e vivida, na tentativa de ter uma experiência diferente e mais completa. Talvez você que está lendo isso seja um deles.

Com a chegada do anime à Netflix, muitas pessoas que tiveram seu primeiro contato com a série há muitos anos tem nas mãos a chance de viver toda a trama intrincada de Evangelion de novo, na esperança de colher um resultado final diferente do de outrora. O desenrolar dessas tentativas costumam variar, mas não é difícil ver gente comentando sobre os pontos mais fortes nas redes sociais com um outro olhar, ou até mesmo discorrendo sobre seu polêmico final.

Falando nele, o final confuso acaba ajudando sem querer a manter a imagem da série como sendo algo “complicado demais” e “para pessoas inteligentes”, fazendo tanto com que os fãs de longa data deem mais uma chance à animação, dessa vez com uma bagagem emocional maior, quanto quem nunca viu queira ver por ter tido a atenção chamada pela lenda do final complicado, ambos ansiosos para aceitarem o desafio de entender como tudo termina.

Todos esses fatores, aliados a um trabalho de arte ímpar e um estilo visual arrebatador e ultra-detalhado, fazem com que Evangelion continue, mais do que popular, atual. É uma obra que mexe com anseios, medos e preocupações que todo mundo tem, contada do ponto de vista de personagens quase reais, que se comportam como qualquer um se comportaria diante das mesmas circunstâncias.

Neon Genesis Evangelion não é algo sacro santo, intocável e sem defeitos, por mais que tenha gente que insista em colocar a série em um pedestal de perfeição. Mas continua sendo uma obra divertida e reflexiva em igual medida, que tem, com o perdão de um trocadilho que só quem assistiu vai entender, uma alma dentro de si.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael