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O Cristal Encantado: A Era da Resistência – O Clássico Revisitado!

- – Série aposta em reconstruir o clima do filme clássico, com uma pegada (ainda) mais sombria!

Por Gus Fiaux O Cristal Encantado é um dos filmes mais peculiares já produzidos por Hollywood. Lançado em 1982 e dirigido por Frank Oz (que ficou famoso por interpretar o Mestre Yoda na saga Star Wars) e por Jim Henson, o lendário mestre dos marionetes que ajudou a criar franquias icônicas, como Os Muppets, Vila Sésamo e o clássico Labirinto: A Magia do Tempo.

Entretanto, por mais que os bonequinhos adoráveis se destaquem aqui – com mais um trabalho magistral por parte de Henson –, o foco é outro. A trama de O Cristal Encantado é um pouco mais perversa e sombria, já que lida com os últimos seres de uma espécie lutando para restaurar um cristal mágico e por fim, de uma vez por todas, num conflito secular encabeçado por seres pavorosos.

Quando a Netflix anunciou uma série que serviria de prequel para o filme, as reações foram variadas. Muitos ficaram ansiosos, enquanto outros ficaram com medo de como a força destruidora que comanda o mercado do entretenimento atual – também conhecida como nostalgia – poderia estragar um clássico irretocável.

Pois bem, o serviço de streaming nos liberou os cinco primeiros da série – metade de sua temporada, para ser mais exato –, e podemos garantir: eles acertaram em cheio.

A Era da Resistência, como é descrita em seu subtítulo, é uma série que, assim como o filme original, não tem medo de usar seus personagens para fins mais sombrios e macabros – na verdade, eles vão até um pouco mais fundo que no longa de 1982.

A história é fragmentada em diversos núcleos diferentes – e às vezes, é até um pouco fácil se perder em meio a tantos personagens e subtramas que vão sendo construídas simultaneamente. Mas o foco está em três criaturas, pertencentes à raça dos Gelflings. O primeiro deles é Rian, um jovem sonhador e que vive junto de sua namorada, Mira. Ele embarca em uma jornada trágica após testemunhar um evento macabro, que o coloca na mira dos Skeksis, os grandes vilões que tomam conta do mundo fantástico de Thra.

Além dele, temos a princesa Brea, que descende de uma linhagem real dos Gelflings, e por sua vez acaba descobrindo – com o conhecimento ao qual tem acesso – o plano macabro dos algozes com forma de urubus. E por fim, a adorável Deet, que é a chave para a resolução desse problema, graças às suas visões complexas e que indicam um futuro marcado pela catástrofe.

Esse trio, por incrível que pareça, não se reúne já de início. Em vez disso, O Cristal Encantado: A Era da Resistência decide tomar seu tempo para criar suas decisões e estabelecer sua atmosfera. Esse é um processo deveras lento e que, em alguns momentos, pode soar arrastado demais, mas que no fim, compensa por nos jogar novamente no universo que nos encantou no filme original.

Por falar nisso, o visual está melhor do que nunca. As marionetes tão características de Jim Henson estão de volta (mesmo que o seu criador tenha falecido há quase trinta anos). Porém, com diversas melhorias na tecnologia, os bonecos conseguem viver e interagir entre si em um mundo muito mais complexo.

A isso, se deve o uso dos efeitos visuais. Eles estão presentes, criando cenários, efeitos de magia e sequências oníricas, mas sem nunca perder de vista a atenção em seus personagens centrais – o que é ótimo. As marionetes tem mais espaço do que nunca, conseguindo transmitir emoções e sentimentos ao mesmo tempo em que somos completamente imersos em suas vidas.

E isso tem tudo a ver com o elenco de vozes. A Netflix se superou e contratou alguns dos maiores nomes do mercado hollywoodiano para compor a gama de personagens da séries. Enquanto alguns aproveitam suas vozes naturais para compor humanidade aos seus personagens, como Taron Egerton (Rian) e Anya Taylor-Joy (Brea), a grande maioria se rendeu à caricatura – o que é excelente aqui.

Nesse sentido, atores como Mark Hamill – que interpreta um cientista pirado ao lado dos Skeksis –, Helena Bonham Carter – Maudra Mayrin, a mãe alienada de Brea –, Awkwafina – outra integrante dos Skeksis – e muitos outros conseguem se distanciar de suas personalidades, dando uma autenticidade ainda maior aos seus personagens.

A série é realmente maravilhosa, desse ponto de vista técnico. Tudo isso é uma honra ao legado de Henson – e não é à toa, já que uma das produtoras é a própria filha do lendário artista, Lisa Henson. Mas vai além disso. A direção de Louis Leterrier (O Incrível Hulk) também é concisa e com um direcionamento preciso, dando a impressão de que estamos diante de um filme de dez horas, e não de uma série.

Mas mais do que isso, é a história que cativa do início ao fim. Em Era da Resistência, temos uma construção bem maior do que sua narrativa. A história progride a passos lentos, e posso dizer que o verdadeiro “começo da jornada” não chega até o fim do quinto episódio.

Entretanto, isso não é um fator negativo aqui. Os cinco episódios aproveitam seu tempo para a construção de relações entre seus personagens, unindo-os pelo suor e pelo sangue, conforme suas motivações vão se revelando a cada nova reviravolta do roteiro.

O mesmo vale para os Skeksis, perigosos vilões da animação original. Se o filme era muito mais “preto-no-branco”, apresentando-os de forma unidimensional, aqui temos uma cascata de poderes em conflito. Basicamente, todos os membros da raça possuem seus próprios planos, e eles estão dispostos a passar por cima de seus próprios aliados para conseguir o que querem.

No lado dos Gelflings, a coisa não é diferente. Temos muito mais contextualização de sua sociedade e de suas “castas”, da mesma forma que vemos alguns que têm interesse em se aliar aos Skeksis, sobre a prerrogativa da imunidade na “Nova Ordem Mundial” de Thra.

Isso torna a série ainda mais madura que o filme. É uma narrativa realmente cheia de complexidade para seus personagens, e embora o público mais jovem certamente vá se interessar na produção pelos bichinhos adoráveis, é com os adultos – especialmente os fãs do longa original – que a nova produção vai ressoar mais alto.

De muitas formas, a série me lembrou bastante o que Rogue One: Uma História Star Wars representou para a saga da LucasFilm. Em vez de apostar em personagens mais homogêneos e definidos como “heróis” ou “vilões”, o filme busca traçar uma trama mais livre de julgamentos, mostrando como os dois lados são influenciados pela guerra.

Isso não é diferente aqui. O único problema é que, assim como em Rogue One, a série acaba já vindo com seu final entregue – e, se seguir de perto o que aconteceu no filme, certamente não será algo bom para os Gelflings.

Aos fãs, fica a recomendação de uma série realmente digna de prestígio e atenção. O mundo de Thra está de volta, mais sombrio do que nunca. E o Cristal Encantado, que jaz no centro dessa sociedade fantástica, dessa vez não será o suficiente para salvar um povo oprimido – mas ele certamente vai incitar uma rebelião.

 

Veja tambémO Cristal Encantado: A Era da Resistência – Série de fantasia da Netflix ganha novo trailer!

Na galeria abaixo, fique com imagens da série:

O Cristal Encantado: A Era da Resistência chega no dia 30 de agosto na Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux