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O Turismo Digital de Kingdom Hearts!

- – A Disneylândia está a um botão X de distância.

Por Lucas Rafael → Quando perdido em uma trama muito densa, eu tento me ater ao básico para prosseguir com um mínimo de compreensão acerca do que está acontecendo. Normalmente funciona. Em Kingdom Hearts, por exemplo, eu não joguei todas as entradas da franquia que se expandem através de múltiplos consoles. Agora que foi tudo reunido numa remasterização para PS4, quem sabe eu dê uma chance (se alguém não se importar em comentar a ordem ideal de se prosseguir pela franquia, eu agradeço.) Mas enfim, eu não entendi tudo que vi se desenrolar em Kingdom Hearts 3. Entendi coisas por me ater ao básico. Aquele Xehanort é do mal. Ele já possuiu muita gente.

Mesmo tateando na névoa de minha ignorância particular tocante à mitologia expansiva da franquia, acho Kingdom Hearts algo muito único e que dificilmente existiria fora da mídia dos videogames.

Eu joguei Kingdom Hearts 1, 2Dream Drop Distance e um pouco do Coded previamente a Kingdom Hearts 3. Coisas como Coded eu achei que não seriam levadas a sério mas, KH3 insiste em abraçar toda sua bagagem antepassada, o que pode frustrar novatos. Mas quem disse que Kingdom Hearts 3 é um jogo para novatos? É um produto claramente destinado aos fãs de longa data. E foi aí que eu percebi estar em um nicho um tanto deslocado entre os jogadores da franquia. Eu curto jogar Kingdom Hearts pra ficar de boa.

 

O mundo de Enrolados em KH III é especial.

 

O primeiro Kingdom Hearts me consumiu centenas de horas no PS2. Eu não sabia o que era aquele jogo com personagens emos na capa junto do Pato Donald e o Pateta. Um dia eu o aluguei e quando cheguei no primeiro mundo, de Alice No País das Maravilhas, era tarde demais para quebrar o encanto. Fizeram uma Disneylândia digital amarrada por uma narrativa completamente maluca sobre amizade e escuridão cujos protagonistas são garotos e garotas com traços de anime e cabelos escandalosamente pontudos.

Kingdom Hearts jamais existiria fora dos videogames. Kingdom Hearts pra mim passou a ser sinônimo de férias digitais na Disney sem passaporte, onde eu iria dar uma voltinha com meus parças Pato Donald e Pateta através de filmes que marcaram minha infância. Não, eu nunca tive muitos amigos.

Os mundos da Disney são mais escassos em KH3, o que me deixou um pouco triste. Ainda assim são ótimos, em sua maioria. O fato do jogo te dar um celular para você orquestrar selfies com personagens da Pixar acrescenta ainda mais ao valor cyber-turístico do jogo.

É sobre isso que este texto se trata. Sobre o fator Disney de Kingdom Hearts, como ele brinca com nossa nostalgia e como é incrível que uma empresa conhecida por jogos de RPG nipônicos tenha conseguido direitos autorais de uma gigante do entretenimento mundial para tecer uma narrativa inchada que por algum motivo, abarca filmes e personagens como Mickey, Malévola, Pato Donald e Ursinho Pooh.

 

Rolê de domingo…

 

Você, que nunca jogou Kingdom Hearts e tem curiosidade porque viu um garoto de tênis gigantes conversando com a Elsa do Frozen, vai sem medo. Os mundos da Disney são tratados com um respeito enorme nestes jogos, disparando facilmente gatilhos da sua nostalgia que vão te fazer se sentir habitando um pedacinho do passado. Kingdom Hearts é um museu de cultura popular preservando através de zeros e uns digitais o catálogo de um dos maiores nomes da indústria do entretenimento. Não bastasse isso, todas as áreas deste museu são interativas. De quebra ainda dá pra tirar foto com o Woody.

O curioso dos mundos da Disney nesta franquia é que eles raramente avançam a trama do jogo. Mecanicamente, eles te dão níveis e itens. Narrativamente, em certos mundos, a trama de Kingdom Hearts não anda.

 

Sora e as irmãs Frozen.

 

Em mundos como Monstropolis ou San Fransokyo; Sora e sua party tem mais agência no desenrolar de eventos. Enquanto mundos como o Caribe ou o Reino de Corona meramente replicam o plot de seus respectivos filmes jogando uma pitada de Heartless (inimigos do jogo) e gente encapuzada no meio. De qualquer maneira, tudo é sempre tratado com um respeito enorme. A qualidade da animação é arrepiante de boa. A trilha-sonora dos filmes assalta o ouvido. O mundo de Toy Story em Kingdom Hearts 3 é tecnicamente mais bem acabado do que o primeiro filme de Toy Story.

 

A carinha do Mike Wazowski…

 

Meus favoritos da franquia seguem sendo Kingdom Hearts II e Dream Drop até o momento. Este último conta com mundos dedicados aos filmes Fantasia e Os Três Mosqueteiros que são verdadeiras joias de se visitar. Ainda assim, nunca vou esquecer quando KH 2 me jogou no passado em preto e branco da Disney, explorando antigos curtas do estúdio como Steamboat Willie.

O próprio jogo aborda estes universos de bolso da Disney através de um viés turístico. Quando você chega neles, são exibidos cartões de entrada. Dependendo do mundo, seus personagens ganham visuais distintos para se adequarem ao ambiente. O menu de ataques e itens ganha novos adornos visuais para combinar com a atmosfera. E se você fizer compras o suficiente na lojinha, ganha até um cartão postal daquele universo. É adorável. Só faltava uma camiseta de “Foram para Traverse Town e lembraram de mim!”

 

Kingdom Hearts II é gigante.

 

Quando a narrativa de Kingdom Hearts entra em modo full-Nomura (diretor do jogo), é simplesmente adorável. Personagens falando sobre clones e vencer a escuridão com a força da amizade enquanto o Mickey fica parado ouvindo tudo com o cenho franzido trajando um sobretudo com mais zíperes do que qualquer função prática pede. Esse contraste Disney/Final Fantasy carrega dentro de si um humor involuntário muito forte que é anulado pela seriedade de todos os envolvidos na concepção daquele universo. Dos dubladores até a animação e a jogabilidade, Kingdom Hearts não quer o seu cinismo, embora seja fácil de evocar ele. Kingdom Hearts quer pregar uma mensagem piegas sobre amizade/luz versus escuridão/individualismo e surpreendentemente consegue. Especialmente quando você percebe que aquele jogo quer ser levado a sério acima de tudo.

No fim das contas, Kingdom Hearts é uma obra de entretenimento pós-moderna vibrante na qual narrativas orientais trombam com narrativas ocidentais, o passado se infiltra no presente e a touca do Pato Donald tem mais zíperes do que uma touca necessita para fins práticos.

Eu gosto de Kingdom Hearts pelo quão único ele é como obra de entretenimento. Entendo que é um produto de preciosidade una para os fãs. Muita gente que lê estas linhas ama Kindom Hearts mil vezes mais do que eu, justamente pela conexão com os personagens e trama extensa. É difícil acompanhar uma franquia com tantos jogos sem desenvolver um laço forte com ela. Da mesma maneira que o público geral ama Disney por ter uma vida regada a conteúdo Disney, os fãs amam Kingdom Hearts por terem investido horas e horas (e mais horas) em diversos títulos da franquia e fóruns online debatendo a mitologia deste universo tão… único.

E se você resolver se aventurar nessa com conhecimento prévio mínimo ou nulo sobre Kingdom Hearts, se atenha ao mínimo necessário: amigos empunhando espadas com formato de chave contra caras do mau. Eventualmente você encontra o Hércules, Mickey e tira umas fotos com a Rapunzel.

 

Use L’oreal Paris.

 

Todas as fotos que ilustram esta publicação foram tiradas por mim enquanto jogava Kingdom Hearts III e re-jogava o II.  Abrir o álbum de fotos do jogo depois de concluí-lo é uma experiência à parte.

Fique com mais imagens de Kingdom Hearts e seus reinos através da galeria abaixo:

Kingdom Hearts 3 já está disponível para PS4 e Xbox One.

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sobre o autor Lucas Rafael

Entusiasta de coisas demais