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Obras-Primas do Medo – Chucky, o Brinquedo Assassino!

- – O que há de perigoso em um boneco?

Por Gus Fiaux → Neste ano, uma das maiores franquias de horror retorna aos cinemas – dessa vez, com um reboot completo. Brinquedo Assassino, um dos grandes clássicos do cinema oitentista, vai voltar com uma roupagem moderna, transformando a história do boneco mais sacana e violento de todos os tempos em um produto de uma época dominada pelas inteligências artificiais.

E com isso, decidimos dar início a uma nova série de artigos explorando grandes franquias do cinema de terror. Aqui começa as Obras-Primas do Medo, e nada melhor do que começar com uma saga tão amada (e odiada) quanto a do insano Chucky.

Em meados da década de 80, um jovem roteirista chamado Don Mancini começou a flertar com a ideia de fazer uma sátira à crescente publicidade infantil na televisão. Sua ideia original era criar algo feito para mostrar os perigos da alienação inserida em comerciais de brinquedos, de redes de fast-food, ou até mesmo de produtos que sequer eram destinados a crianças, mas que traziam meninos e meninas dos subúrbios americanos em seus comerciais.

Aos poucos, a ideia foi evoluindo, se transformando cada vez mais no filme dirigido por Tom Holland o mesmo diretor de outro clássico, A Hora do Espanto, lançado mundialmente em 1988 (tendo chegado ao Brasil apenas no ano seguinte).

Na trama, um assassino chamado Charles Lee Ray é perseguido pela polícia. Ele é pego no meio do fogo cruzado e morre em uma loja de brinquedos, mas não antes de performar um ritual vodu e passar sua “alma” para um boneco da marca Good Guy, que aos poucos ganha consciência.

Dias depois, o mesmo boneco é presenteado ao garoto Andy Barclay em seu aniversário de seis anos. A mãe do menino, Karen Barclay é viúva e cuida de sua criança sozinha, apesar das adversidades, enquanto tenta manter seu lar intacto. Ela por pouco recusa o pedido de Andy, devido à falta de dinheiro, mas acaba conseguindo comprar o boneco graças a um vendedor ambulante, que passava por perto da loja onde Charles Lee Ray fora executado.

Aos poucos, a influência do boneco – agora chamado “Chucky” vai sendo sentida, até a hora em que o brinquedo realmente vêm à tona cometendo assassinatos. A família fica refém desse monstro cruel, mas Andy é o único que realmente sabe o que está acontecendo. Apesar disso, ninguém acredita nele devido à sua idade.

Quando Karen descobre o que está acontecendo – após a morte de sua melhor amiga -, já é tarde demais. O assassino quer realizar o ritual de passagem de alma em Andy, para que no futuro possa ter um corpo viril e poderoso para continuar suas chacinas.

Embora não seja exatamente um filme extremamente bem-produzido, o longa sobreviveu ao teste do tempo e se tornou uma grande franquia, com seis sequências e um reboot. Além disso, foi o longa que transformou Brad Dourif (também conhecido por seu papel em O Senhor dos Anéis) em um grande ícone do cinema de horror, por mais que sua participação física aqui tenha sido mínima, e a maior parte de suas cenas seja com ele dublando o boneco.

Além disso, a recepção do público foi bem lucrativa. Com um orçamento limitado de US$ 9 milhões, o filme fez quase 5 vezes esse valor, arrecadando US$ 44 milhões – o que obviamente lhe garantiria uma sequência, lançada em 1990.

Dirigido por John Lafia (um dos roteiristas do longa original), Brinquedo Assassino 2 segue os eventos do primeiro. Após derrotarem Chucky em um confronto letal, mãe e filho se separam. Karen é internada em um hospital psiquiátrico por contar ao mundo sobre o brinquedo maldito, enquanto Andy é levado para morar com Phil e Joanne Simpson – um simpático casal que já havia adotado a rebelde Kyle.

Enquanto isso, a empresa responsável pela produção dos bonecos Good Guys reconstrói o boneco destruído no primeiro filme, com medo da repercussão negativa que os relatos de Andy e sua mãe poderiam causar para a venda dos bonecos. Eles desejam apenas provar a todos que o boneco é inofensivo.

Mas, como era de se esperar, não é.

Chucky então foge da empresa, assassinando alguns funcionários, e decide ir atrás de Andy. Porém, agora ele não deseja apenas passar sua alma para o corpo do garoto. Agora, é pessoal. Ele quer se vingar do “menino estúpido” que conseguiu derrotá-lo, mesmo que para isso precise derrotar meio mundo.

Phil e Joanne tinham um Good Guy, e o brinquedo assassino loga toma seu lugar, enterrando-o no quintal. A partir daí, os eventos seguem em uma sucessão similar à do primeiro filme. O boneco chega na casa e aos poucos faz sua presença ser sentida.

E, assim como no primeiro filme, Andy descobre as tramoias e tenta avisar a todos, mas é invariavelmente reprimido pelos adultos. A única que parece nutrir uma simpatia pelo menino é Kyle, que aos poucos começa a notar padrões estranhos no comportamento do boneco.

Ao fim, temos uma grande batalha – dessa vez, entre Andy e Kyle contra Chucky, que também assassina os pais adotivos dos dois. Eles então vão até uma fábrica da Good Dolls e lá destroem novamente o boneco.

Apesar de ser apenas uma versão “maior” do primeiro filme, Brinquedo Assassino 2 possui alguns méritos incomparáveis. O longa é mais divertido e Chucky está cada vez mais insano. A dinâmica de Andy e Kyle, vividos por Alex Vincent e Christine Elise também é um dos destaques, já que os dois agem como irmãos por obrigação, mas que aos poucos começam a se gostar.

Particularmente falando, é meu favorito da trilogia original, por ser divertido ao mesmo tempo em que muitas das falhas técnicas são deixadas de lado, apesar de não deixar de ser uma “cópia” do primeiro.

E isso nos leva ao “encerramento” da saga entre Andy e Chucky, ao menos até então. Brinquedo Assassino 3 seguia, mais uma vez, o garoto – que dessa vez, havia se alistado em um colégio militar para evitar a morte dos que ama. Na fábrica, peças e componentes do Chucky original são derretidos e transformados em outro boneco, que retém a alma do assassino, e ele logo foge para causar terror ao moleque.

O terceiro longa talvez seja o mais esquecível de toda a franquia. Alex Vincent, o Andy dos dois anteriores, é substituído por Justin Whalin, já que a história demandava um garoto mais velho. Entretanto, o novo astro não tinha metade do carisma de Vincent, o que o torna um protagonista chato e, por vezes, irritante.

E embora Brad Dourif se esforce, seu papel aqui é apenas um dispositivo da narrativa, já que o maior foco é dado para a vida no colégio militar – que é bem monótona e repetitiva, diga-se de passagem. Até as matanças começarem, já estamos querendo que o filme acabe.

Felizmente, o diretor do longa, Jack Bender, acabou tendo uma carreira muito mais expressiva na televisão. Ele foi responsável por episódios de Lost e Game of Thrones (dentre os quais, o emocionante Hold the Door). Infelizmente, ele ainda é conhecido por ter comandado o filme mais inexpressivo de uma franquia adorada.

Sete anos após o terceiro filme, em 1998, a franquia tomou outro rumo com A Noiva do Chucky, o filme que introduziu diversos novos elementos à saga de Chucky. De um lado, Andy Barclay foi esquecido (ao menos temporariamente), enquanto conhecíamos Tiffany, uma psicótica obcecada com Charles Lee Ray, que recupera o boneco destruído ao fim do terceiro filme e o recria, dando-lhe um novo visual, ainda mais apavorante.

Além disso, é nesse momento que a franquia também muda o rumo até mesmo em relação à sua proposta. Por mais que os filmes originais tivessem uma boa dose de humor, até mesmo devido à sua premissa surreal, é aqui que a saga migra completamente para o cômico e para o politicamente incorreto.

Na trama, após “salvar” o boneco, Tiffany acaba sendo transformada em boneca após uma briga com Chucky, e os dois se envolvem em uma road trip ao lado de dois adolescentes fugitivos “contratados” para levá-los a um outro local, sem ter a mínima ideia do lado mortal dos brinquedos – que dessa vez, nem sequer aparentam ser inofensivos.

O filme é uma grande piada do início ao fim, e apesar de não ser lá um filme “bom”, é possivelmente um dos mais divertidos da franquia, especialmente pela dinâmica entre Chucky e Tiffany (brilhantemente interpretada por Jennifer Tilly). Além disso, o núcleo humano é outro destaque, já que os adolescentes acabam entrando em uma espiral de horror extremamente engraçado conforme as mortes ao seu redor começam a acontecer.

E, ao fim, é justamente a relação entre Chucky e Tiffany que os leva ao fim – ainda que temporário. Os dois se desentendem em uma briga muito feia e matam um ao outro… algo que só dura até o próximo longa.

Lançado em 2004, O Filho do Chucky é uma galhofagem do início ao fim. É, também, o mais odiado pelos críticos e mais amado por este que vos escreve. Basicamente, na história, os bonecos são trazidos à vida porque Tiffany havia engravidado e dado luz a outra marionete bizarra.

Ao mesmo tempo, os dois bonecos são levados a um set de filmagens. É isso mesmo que você está pensando: Hollywood está pensando em produzir um filme sobre a história dos dois. E no papel principal, está ninguém menos que Jennifer Tilly (interpretada pela própria Jennifer Tilly).

O filho (ou filha) de Chucky – ele não sabe ainda o que é – vai atrás de seus pais, que despertam e começam uma onda de assassinatos. No entanto, Glen/Glenda quer que eles parem com essa vida e sigam como uma família feliz – uma ideia que dá, no mínimo, errado.

Ao fim, muita coisa louca acontece e Glen/Glenda acaba se tornando tão psicopata quanto seus pais. Já Tiffany acaba realizando o ritual vodu para transferir seu corpo para Jennifer Tilly, alcançando o objetivo que Chucky nunca conseguiu alcançar.

O filme entra em destaque aqui por ser o primeiro da franquia dirigido por seu criador, Don Mancini. Com total controle criativo, Mancini consegue compor uma história cheia de elementos cômicos e ridículos, no melhor sentido da palavra, sem perder o teor sangrento que a saga sempre teve.

No entanto, ele também introduz alguns elementos que só hoje são pensados e discutidos em mídias tradicionais. Mancini (um homem LGBT) introduz aspectos de sua própria convivência, criando algumas discussões sobre identidade de gênero e sobre sexualidade, sem nunca perder o teor escrachado e auto-consciente da franquia.

Ainda assim, o longa não fez o retorno esperado nas bilheterias. Custando US$ 12 milhões, ele só conseguiu retornar o dobro aos estúdios – mas acabou sendo beneficiado pelas vendas de DVD e VHS, o que levou a franquia em outra nova direção.

E eis que em 2011 foi lançado o sexto capítulo da saga, intitulado A Maldição de Chucky. Lançado direto para DVD e Blu-Ray, o filme é surpreendentemente um dos mais bem-avaliados do franquia – um fato quase inacreditável para filmes de horror lançados direto em home video, já que não há maior sinal de decadência para as franquias do gênero (vide a saga Hellraiser).

Na trama, uma mãe solteira e sua filha paraplégica recebem um boneco Good Guy que, para a surpresa de todos, não conta com os retalhos assustadores em seu rosto, vistos anteriormente em A Noiva e O Filho. De repente, a mãe da cadeirante morre, e um a um seus amigos próximos vão sendo derrotados.

Curiosamente, esse é um dos filmes em que mais duvidamos das ações do boneco. Até mais da metade do filme, não acreditamos que aquele é o Chucky que conhecemos nos anteriores, e sequer o vemos se mexendo ou agindo. Porém, ao fim é revelado o que todos já esperavam: ele é de fato um assassino.

No entanto, há uma reviravolta sensacional tecida aqui. Na verdade, descobrimos que trata-se do mesmo Chucky de cara rasgada, que planejou toda uma vingança contra a família de uma mulher que a rejeitou – justamente a mãe que morre no começo do filme. É uma virada de roteiro muito boa e que apresenta Brad Dourif novamente como a versão humana de Charles Lee Ray.

E com isso, vamos até O Culto do Chucky, o filme mais recente da saga original, lançado em 2017. Em uma das cenas pós-créditos de A Maldição, vemos um homem recebendo uma caixa com um Good Guy – o mesmo com rasgos no rosto dos longas anteriores. Trata-se de Andy Barclay, o menino dos três primeiros filmes, novamente interpretado por Alex Vincent, agora já adulto. Porém, dessa vez, Andy está preparado, e começa a torturar o boneco, enquanto o mantém em cativeiro.

Ao mesmo tempo, seguimos a protagonista paraplégica do longa anterior, que foi internada em um hospital psiquiátrico por ter sido considerada a causadora dos assassinatos. O pior então acontece: vários bonecos são enviados ao hospital para ajudar no tratamento dos pacientes… e todos eles são receptáculos da alma de Charles Lee Ray. É isso mesmo – em A Maldição, descobrimos que Chucky, com a ajuda de Tiffany, aprendeu a espalhar sua alma para vários receptáculos diferentes, criando várias versões de si mesmo.

Assim como A Maldição, O Culto retoma a proposta de um filme mais “sério”, por mais que ainda haja humor e gore o suficiente para entreter o público. É um longa cheio de reviravoltas e que termina com um final promissor, conforme Andy retorna para sua vingança – e inclusive conta com a participação de uma estrela muito adorada da trilogia original.

Ainda assim, o estúdio responsável pela franquia decidiu que era hora de dar uma nova roupagem à saga – o que deixou o criador Don Mancini, junto com diversos astros da franquia, muito revoltados. E por mais que a franquia não deva continuar nos cinemas ou em filmes direto para home video, há planos de continuá-la em uma série televisiva, que está prevista para o ano que vem.

Quanto ao reboot, é preciso dizer que nenhum dos membros originais da franquia teve envolvimento. Brad Dourif não retornou, e foi substituído por ninguém menos que Mark Hamill – o eterno Luke Skywalker. O novo longa, dirigido pelo norueguês Lars Klevberg, parece uma recontagem moderna do filme original, contando até mesmo com os mesmos personagens, Andy Barclay (vivido por Gabriel Bateman) e sua mãe, Karen (Aubrey Plaza).

O longa não foi muito bem-recebido lá fora, ganhando críticas mistas da imprensa especializada, mas parece que teremos que esperar um pouco para saber o que há de novo no universo desses bonecos macabros.

Por mais que a franquia tenha seus altos e baixos, Brinquedo Assassino é uma saga divertida para quem quer um horror mais descompromissado (e até menos “assustador”). Chucky, Tiffany e os diversos outros personagens introduzidos aqui são criações realmente preciosas do gênero, criando uma saga memorável até mesmo por quem não gosta desse tipo de filme.

Com um humor bem irreverente e politicamente incorreto – ainda que com um propósito bem demarcado – a saga sobreviveu ao teste do tempo e ainda tem potencial para continuar por muitos anos, especialmente sob o comando seu seu criador original.

Aos fãs, resta esperar pela série de TV – ou, por que não, se divertir com o novo reboot. Mas, ainda assim, Brinquedo Assassino veio com força total – criando uma das maiores lendas do cinema e, ao mesmo tempo, uma das obras-primas do medo. Mas não se assuste. Afinal, o que há de perigoso em uma brincadeira de criança?

 

Veja também: Brinquedo Assassino – Chucky retorna em novo trailer do filme!

Confira alguns cartazes do reboot na galeria a seguir:

Brinquedo Assassino chega aos cinemas no dia 22 de agosto.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux