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Terror Tupiniquim – O medo interiorano de “O Escolhido” e “Nova Jaguaruara”!

- – Quem disse que o meio rural não é assustador?

Por Gus Fiaux → Nos últimos anos, a Netflix tem mostrado seu compromisso com o público brasileiro. Além de trazer ao catálogo diversas séries e filmes aclamadas na gringa, o serviço de streaming tem dado um espaço cada vez maior para produções nacionais, especialmente voltadas a gêneros mais fantásticos.

Se 3% nos apresentou um futuro distópico que conta com uma ficção científica muito abrasileirada, o mais recente lançamento nacional da plataforma aposta em um cenário mais próximo da nossa realidade. Estamos falando de O Escolhido, série criada pelo casal de escritores Raphael Draccon e Carolina Munhóz.

A trama acompanha um trio de médicos que se embrenha em uma cidadezinha do interior mato-grossense, para vacinar a população local contra uma mutação do Zika vírus. As coisas começam a dar errado quando eles percebem que a população local, muito resistente à vacina, não adoece e nem morre.

A partir daí, surge a trama envolvendo um Escolhido – um homem messiânico que habita na cidade e é responsável por curar todos os moradores do vilarejo. A premissa é bem interessante, mas o que mais me toca a seu respeito é a presença de um subgênero não muito discutido do terror: o horror rural.

O Escolhido, mais novo expoente do horror rural brasileiro.

Embora esse tipo de história tenha lá seus grandes expoentes no exterior, como A Bruxa, Colheita Maldita e A Vila, no Brasil não costumamos ver muito debate em cima disso – por mais que toda a tradição do horror nacional derive, direta ou indiretamente, do horror rural.

Tem dúvida disso? Então me responda: onde é mais provável você conhecer pessoas que acreditam e até relatam casos de seres como o Saci, a Mula-Sem-Cabeça e o Boitatá? No sertão ou na cidade? A resposta já é meio óbvia por si só.

O que O Escolhido faz é condensar esse tipo de narrativa em um cenário não muito explorado pela mídia. O Pantanal, com todos os seus segredos e mistérios, aparenta ser o ponto de partida ideal para uma trama de isolamento e a exploração de um povo alienado, que acredita fielmente na chegada de um salvador e que vê o mundo ao seu redor como uma ameaça.

Messias do Pantanal

E talvez isso seja o que melhor categorize esse subgênero rural – além, é claro, do cenário onde se passa a história.

Ao todo, O Escolhido é um exemplar forte do horror nacional. E por mais que sua primeira temporada não dê todas as respostas necessárias ao público, fica ao fim um gancho para um segundo ano, que promete ser ainda mais recheado de suspense e horror, conforme medos do passado voltam para assombrar os protagonistas.

No entanto, assistir aos seis episódios da série me fez lembrar muito claramente de uma leitura recente, que aborda o horror rural com algumas similaridades, mas de uma forma completamente diferente. Estou falando do livro Nova Jaguaruara, do autor cearense Mauro Lopes, lançado em 2017 diretamente para o Kindle.

O livro traz uma premissa parecida: Alguns pesquisadores viajam até uma cidade (dessa vez, o fictício vilarejo que dá nome ao livro, localizado no interior do Ceará). Lá, eles se deparam com um povo aflito e um acontecimento bizarro: todos os dias, à meia-noite, a energia da cidade se esvai e só retorna após um minuto completo.

Capa de Nova Jaguaruara, excelente horror brasileiro.

A trama, por sua vez, muda o foco para um horror ainda mais sobrenatural, com a presença de elementos folclóricos que arrepiam a espinha de qualquer um, incluindo demônios e animais possuídos. Mas talvez, o que realmente meta medo na história é a presença de uma igreja abandonada, um local blasfemo.

A história se desenvolve e aborda vários pontos de vista – dentre os quais, o de outro “escolhido”, uma nova figura messiânica que aparece, trazendo cura e luz para os habitantes da cidade.

É interessante observar essas tendências e como elas possuem um pé firme no imaginário popular brasileiro. Já não é de hoje que ouvimos as histórias de curandeiros e homens milagrosos nos interiores – alguns inclusive chegando a ser beatificados em suas devidas cidades, seja pela Igreja Católica ou pelo próprio povo local.

Tudo isso, obviamente, está muito associado à cultura e ao pensamento interiorano, especialmente em cidades pequenas que parecem estar localizadas em outro período temporal de nossa história. Os “messias” são, antes de mais nada, figuras que indicam uma “ligação” entre o povo e Deus. Micro-salvadores inseridos em uma micro-situação.

Essas histórias merecem ser prestigiadas justamente por mexerem com medos mais próximos de nossa realidade, com fantasias embasadas em nosso folclore e em nossa crença popular.

Além disso, elas são apenas algumas das provas de que o horror rural encontrou seu espaço no Brasil. Ainda ao fim deste mês, teremos o lançamento de Bacurau, filme dirigido pelos recifenses Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Bacurau, filme que já conquistou festivais lá fora.

Aqui, no entanto, teremos um misto de diversos gêneros. Descrito como um faroeste futurista cheio de terror gore e com pitadas de drama e fantasia, o longa se passa em um futuro não muito distante, quando o povo de uma cidade chora pela perda de sua matriarca e, dias depois, percebe que sua comunidade literalmente sumiu do mapa.

O filme já foi premiado no Festival de Cannes e promete, com um elenco encabeçado por Sônia Braga e Udo Kier. Ainda não sabemos se o filme terá alguma similaridade com O Escolhido ou Nova Jaguaruara, mas certamente nos faz pensar que o horror rural voltou à moda, voltando nossos medos e anseios contra o que se isola nos interiores da nossa pátria assombrada.

 

Na galeria abaixo, fique com imagens de O Escolhido:

A primeira temporada de O Escolhido está disponível na Netflix. Já o livro Nova Jaguaruara está disponível em formato ebook e pode ser adquirido pela Amazon.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux